quinta-feira, 17 de junho de 2010

Vazio


Há tanto tempo eu busco um bom motivo pra voltar aqui, pra dizer todas essas coisas que tenho jogado de jeito subjetivo sobre alguém. Minhas mãos não são mais treinadas a falar, nem minha boca, e tudo aquilo que expresso, não expresso realmente.
As palavras foram fugindo de mim. Aos poucos. E aquilo que importa eu não vou os falar.
Toda essa prolixidade não passa de um meio de me explicar e de te explicar do porque desses meus silêncios. Fácil: Não tem explicação! Eu simplesmente: mudei. Mudei aqui dentro, mudei a minha expressão, mudei o meu sentimento. E esse é o momento de te dizer, tudo aquilo que eu não vou falar, falando sem parar.
Assim tenho tecido essa trama, esse drama, esse nó na garganta. Tenho aumentado as minhas perdas, insistido em me preocupar com problemas inexistentes. Me perco, e me acho em algum verso, formo frases que vento leva, que a chuva apaga antes mesmo de você as perceber. Me faço notar, e depois me apago, me apego, me acalmo.
E assim vai seguindo, assim me sacio das palavras não ditas, facilito a minha vida com toda subjetividade existente em ti, em mim, em nós. É o meu jeito de não sentir dor...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Eu em você


Que lugar é esse em que me jogo? “Eu nunca estive tão perto de mim mesma” – eu dizia sem parar enquanto a água da chuva cortava o vidro com pingos brutos. Eu estava num ônibus lotado, como todos os dias, mas nunca tinha estado tão em silêncio, tão atenciosa com meus pensamentos, com o que sou, com o que fui, com o que fomos...
Ao mesmo tempo em que fazia uma prece a São Longuinho, Negrinho do Pastoreio e afins, eu estava centrada nesse pensamento. “Eu nunca estive tão dentro de mim mesma”. Parecia-me incrível ter trazido minha vida até onde está com pensamentos tão superficiais. Em um breve lapso comecei a emergir em uma cena que nunca presenciei verdadeiramente. Lá estava você, tão meu. Que porra de encruzilhada nós estávamos! “Eu nunca estive tão dentro de você mesmo”. Parece que conseguiria ouvir até o pulsar do seu relógio misturado ao ronco do motor e dos pneus ao entrarem nas imperfeições da estrada, mas aquilo me introduzia ainda mais, agora, no teu pensamento.
“Eu nunca estive tão abandonado de mim mesmo”. Você se virava na cama e tentava achar uma solução. Na tua cabeça confusa, eu me emergia. Como uma espécie de osmose meu pensamento encontrava o seu e me deixava ainda mais perto do que eu havia me tornado: duas pessoas distintas.
Em certa parte de mim estava a encruzilhada, o desencontro daquela noite gélida e a vontade de me inserir em você. No oposto dessa estava eu, perto de mim mesma, perto da outra que havia me tornado, tentando unir as duas em uma solução.
“Eu nunca estive tão eu em você mesmo”.
Foi aí que cheguei ao meu destino. E a freada brusca do ônibus me colocava sobreposta àquela outra que eu carregava em meus ombros, a vida continuava, eu ali, e a outra aí: ao teu lado, ouvindo aquele som pra lá de conhecido...

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Já fomos



Para ouvir ao som de Pra você guardei o amor - Nando Reis

Nunca pensei que sentiria dor de perda semelhante a essa. É uma pena eu não poder ser clara, mas esses amores que vão surgindo lentamente são como borrachas que apagam o pequeno rabisco que me tornei durante esses anos. Você nem sabe do que se trata. Isso são apenas pensamentos aleatórios que me vem a cabeça quando lembro da cena do último final de semana.
E na tua? O que se passa na tua cabeça? Andas dizendo que nunca se apaixonou. Não acho consolo, nem explicação. Então, esse amor que acolhi aqui dentro, como uma flor delicada, não passou de enganação? Guardei sem motivo algum, em vão. E esse é o meu jeito, esse é o jeito que eu tenho de mostrar pra ti todos as conclusões que tiro através da tua frieza, dessa tua eterna infância. Essa tua falta de seriedade…
Engraçado, pense comigo, porque o céu já não está mais tão furtacor? Não sei se é o efeito de tantos prédios que me rodeiam nessa cidade estranha ou se é o sinal de que tudo perdeu cor pra nós dois. Nós dois quem? Fomos um dia, algo como… completos. E o gelo foi queimando de vagar o compasso da minha pulsaçao, foi me deixando tão longe, tão distante de todas as linhas e parágrafos da história que construimos (que construí).
Sigo comumente, sem querer voltar. Pronta pra um recomeço ou um simplesmente: tentar!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Tarde de maio (ou tarde demais)


Me veio em uma tarde de maio. Enquanto todo aquele vento escrevia linhas tortas na terra seca. Há quem diga que histórias têm inicio, meio e fim. Mas quem dirá que a minha continua incessante? Quem entenderá essa minha insistência? Quem compreenderá que eu não tenho o direito de te amar?
Assim como todas essas interrogações segue minha vida. Milhões de perguntas sem respostas. Você vai e volta o tempo todo e eu continuo sempre no mesmo lugar, no mesmo mês, nas mesmas linhas tortas. Eu espero por você sabendo que você já veio, que você já foi, que já vivemos o que tínhamos pra viver.
Eu gosto desse lugar como se eu almejasse pela minha vez, como se um dia toda história deixaria seu tom cruel. E então eu olho pro céu e só escuto a tua voz e você pensa que talvez goste de mim, que talvez valha a vez, mas não, você sempre corre. Você se restringe por todo esse pouco.
De alguma forma todas aquelas mãos e aqueles olhos e aquelas vontades me fazem retornar com freqüência àquela cena que nunca aconteceu. Já não sei identificar o que foram sonhos do que foi real. E eu tento reordenar os acontecimentos, mas só enxergo você atrás da vidraça cantando uma música qualquer, sem importância alguma, sem olhar atrás.
Mas logo me vem à cabeça todos aqueles centímetros que nos separaram por meses e mais meses, aquelas portas que não podíamos ultrapassar - que não podemos ultrapassar. Mas pra você, isso não faz o menor sentido.
Minha permanência na tua vida é mesmo uma insistência, é uma teimosia. E como eu poderia dizer que a vida ia se resumir nisso, que minha história seria escrita sobre as linhas tortuosas de maio e que a tua vida seria progressiva, que nesse livro não existiria nosso encontro, que essa história seria maior que a minha existência?
“A coisa que uma pessoa mais precisa na vida é gostar das outras pessoas e ser gostada, também. Aí, pra ser gostado, a gente escreve histórias.”

Você gosta desta?

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

À meia-noite


Hoje à meia noite voltamos a nascer - já diria Caio Fernando. Que 2010 seja doce, suave e cítrico. Que possamos dobrar nossos joelhos diante da criação do Pai e pensarmos leve: “Que assim seja, meu Deus”. Que sejamos puros, que sejamos verdadeiros, de carne, ossos e sonhos. Que compreendamos que a vida é mesmo essa espécie de vai-vem, e que os dias são apenas hiatos entre o nascer e o morrer.
Quando o sino anunciar a meia-noite peça pelo mundo, não seja egoísta. Peça pelas flores, peça pelos rios e acredite nas crianças, pois os anjos desse ano estão prontos para entrarem em ação. Se for preciso chore, se arrependa, grite, mas não esqueça que além de um fim, hoje, é um começo. É tempo de recomeçar, de corrigir, de realizar.
Todos já podemos sentir essa energia que se ergue no horizonte proclamando que é possível, que pode ser verdade, que você irá se erguer da sua oração e tudo será novo, de novo. 2010 vêm como borboleta, de flor em flor, nos corações de quem acredita. O trem está a caminho, e todos sabemos que a nossa vida é muito pra ser restrita ao trilho. Faça sua história, faça 2010. Agora você pode. Agora você pode fazer o que quiser.
“Brindemos à Vida – talvez seja esse o nome daquele cara, e não o que você imaginou.”

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Um céu ex-azul


Dias cinzentos, talvez eu não devesse mesmo falar tudo o que falei ou lembrar-se de tudo o que eu lembro. Na verdade, todas essas frases jogadas foram se tangenciando, cada uma tocando na outra, uma cama de gato vai se formando lentamente. Ela me lembra essa formação de temporal que presencio daqui, sentada, lamentando.
Eu fui tomada por essa vontade que se contorce de correr na chuva. Eu deveria mesmo parar de voar. Essas asas sempre foram inúteis, me confundem. Lançam-me ao céu na esperança de me libertar. De quê?
A nossa música nas ondas do rádio ia se chegando de vagar e tocava meus cabelos. O vento gélido anunciando ciclone era outra melodia e te expulsava dessa lembrança. Começo a emergir.
Essas feridas loucas ardem, não sei se mais em dias de chuva, ou se doem mais quando o pôr do sol se forma entre as poucas nuvens no céu. É, era o nosso por do sol e agora, meu.
E pouco a pouco a chuva começa a acalmar. E o teu céu, azul, ressurge, entre as frestas das nuvens estou eu, acanhada, tentando brilhar. Tentando, tentando, sem parar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Barreira


Seria fácil se existem apenas aquelas lágrimas com gosto amargo. Parece incrível eu estar aqui ainda enquanto me doeram tantas verdades. Acreditar em Deus, enquanto o sol começa a nascer e a vida insiste em pulsar. Enxergar que a vida não passa de um punhado de sal que se joga pra espantar um temporal. Tomo um gole de água. O coração parece inflamar, dores e mais dores incendeiam minha saudade. Mas, é uma saudade de sentimentos antigos como fé e esperança.
Veja só, eu só queria alcançar a vida mais rápido, enquanto ela corre pelos seus caminhos ensolarados. Eu só queria ser feliz, cara. Longe daqui. Eu queria desenhar as coisas boas da vida. Mas agora só me resta esse nó e essa sede que parece insaciável. Estou mais cansada e tudo está mais distante. Não há mais portos e o mundo já não é o meu.